• Camila Borges dos Santos

Vamos falar de Teatro!

Durante décadas alguns pilares fundamentavam as narrativas, as ideologias, os comportamentos, as ações e as perspectivas do mundo social moderno, no entanto, para o século XXI já não mais se sustentam, precisamos de outro olhar sobre a vida que produzimos.


Neste sentido, penso no poético conselho “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, do escritor José Saramago (1995, p. 143) em seu Ensaio sobre a Cegueira. Não basta ver é preciso enxergar, para além do que o olho vê, mas o que a alma pode captar. A educação necessita de um olhar sensível e humano, para isso acredito que a linguagem teatral é extremamente potente e possível no âmbito escolar.


Nos espaços escolares geralmente o teatro é trabalhado de uma maneira instintiva por parte do professor, no entanto é fundamental que o mediador desta prática, possa se apropriar dos conhecimentos necessários para desenvolver a linguagem teatral de maneira respeitosa. Mas como fazer isso?


Precisamos compreender que o teatro quer comunicar, para isso é preciso ter consciência que temos um corpo, que cria, recria, imagina, se expressa, possui e produz saberes. Neste sentido, Vianna e Castilho (2002, p. 23), afirmam que “estar presente em seu próprio corpo é o primeiro passo para um professor que se deseja mais livre, mais criativo, mais consciente de si, dos outros, do lugar que ele ocupa”. Para isso, ainda afirmam que,

[...] O corpo cria. Cria a si mesmo, quando refaz suas estruturas, quando se modifica, quando metaboliza alimentos. Cria as relações à sua volta, quando ocupa um lugar no espaço, se “achata” ou se expande, quando se expressa de forma verbal e não verbal. Cria tensões e desejos, de alcançar algo, tocar em alguém, se retrair, agredir, fugir, acarinhar. Cria situações expressivas, quando dança, canta, representa, gesticula, imita, mimetiza. E cria fatos. Gera conhecimento. Gera emoções. Cria doenças. Cria saúde. (VIANNA E CASTILHO, 2002, P. 26).

A partir de um corpo criativo, podemos despertar a atenção para o jogo. Os jogos teatrais foram originalmente criados por Viola Spolin para ensinar técnicas teatrais para jovens estudantes e por apresentar na prática do fazer a liberdade, a invenção, a criação, a espontaneidade, o aqui e agora, fazem a disciplina e a fantasia atuarem dialeticamente.


Para isso, Spolin (2001, p.20) afirma que os jogos teatrais experimentados no espaço escolar “devem ser reconhecidos não como diversões que extrapolam necessidades curriculares, mas sim como suportes que podem ser tecidos no cotidiano, atuando como energizadores e/ou trampolins para todos”.


Neste sentido, experimentar e ampliar repertório com os jogos é um excelente exercício no caminho para se apropriar da linguagem teatral, ou seja, viver os jogos, deixar que eles passem pelo corpo e possivelmente pelos sentidos e sentimentos. Este processo de experimentação pode suscitar a produção de sentido, provocando a elaboração de pensamento, e uma vez que se inicia este andamento, fomentado pela prática, não se finda.


Quando tornamos consciente a existência de um corpo, potencialmente criativo, que joga de maneira livre, espontânea e, ao mesmo tempo com disciplina, avançamos no processo da improvisação cênica, a qual pode surgir de várias maneiras e dos mais inesperados temas. Para tanto, o que guia a improvisação teatral é a imaginação, a capacidade de invenção, a exploração de outro(s) modo(s) de ser e de agir, conectados ao corpo, aos sentimentos e as emoções.


Todos os sentidos e sensações estão presentes neste processo de jogar e improvisar. Para isso, Spolin destaca a intuição e declara que

O intuitivo gera dádivas no momento da espontaneidade. Aqui/agora é o tempo da descoberta, da criatividade, do aprendizado. Ao participar dos jogos e improvisações, professores e alunos podem encontrar-se como parceiros, no tempo presente, e prontos para comunicar, conectar, responder, experienciar, experimentar e extrapolar, em busca de novos horizontes. (SPOLIN, 2001, p. 20)

Neste processo, a abertura para o desconhecido, para o reconhecimento de si e do outro, aparece como mola propulsora para os sentidos e saberes que estão submersos em cada sujeito. A experiência com o teatro privilegia, de certo modo, o autoconhecer-se e o autocompreender-se, na relação de diálogo com o mundo, pois a reflexão de si leva a articulação de conhecimentos sobre a e na vida. Não menosprezemos nossos afetos, nossos sentimentos, caminhemos no sentido de enriquecer nossa natureza humana.

REFERÊNCIAS

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


SPOLIN, Viola. Jogos Teatrais: o fichário de Viola Spolin. São Paulo: Perspectiva, 2001.


VIANNA, Angel; CASTILHO, Jacyan. Percebendo o corpo. In: GARCIA, Regina Leite (Org.). O corpo que fala dentro e fora da Escola. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.


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